quinta-feira, 13 de agosto de 2020

ADULTESCENTE

 

Adultescente

Adultescente é um neologismo jocoso de sentido óbvio, cruzamento de adulto com adultescente. No entanto, ainda não abriu caminho até aos dicionários portugueses, mais do que isso, não parece ter vingado de verdade em nosso dia-a-dia. É só olhar à nossa volta: adultescentes não faltam na paisagem contemporânea. Talvez você tenha um ou dois dentro de casa. Talvez você seja um.

A caraterística comum dos adultos “infantilizados”, consumidores de videojogos e livros sobre magos, é prolongarem frequentemente a sua dependência do lar paterno muitos anos além da média histórica, mesmo que – e isso é o mais intrigante –trabalhem e ganhem dinheiro suficiente para ter sua própria casa.

Analisando a diferença impactante nos padrões educacionais e culturais atuais, fica evidente que a adolescência se torna precoce, como também se torna ainda mais prolongada. Os filhos não querem sair da adolescência. Conceitua-se, então, chamado de adulto/adolescente ou adultescente.

O adulto/adolescente acomoda-se sob as asas dos pais e ali querem permanecer com o conforto e a mordomia, alargando ainda mais a adolescência até cerca dos 40 anos, para não assumir os compromissos e as responsabilidades que vêm com a idade.

Há algumas décadas (anos 60 e 70) os pais eram mais disciplinadores, mais rígidos na educação de seus filhos, com conceitos de formação familiar, religiosa e profissional, para constituírem suas próprias famílias a fim de se tornarem independentes.

Advém a transformação pós-moderna das últimas décadas. Os pais assumiram a busca pela sua própria independência como também a sua autodeterminação, o que é uma necessidade natural e saudável, lançando-se no mercado de trabalho tendo cada vez menos tempo para os filhos. Assim, exposição por longo tempo à televisão ou à internet, telemóveis, videojogos pelas crianças tem causado diversos tipos de distúrbios: relativos atrasos cognitivos, ansiedade, deficit de atenção, irritabilidade, dificuldade de aprendizagem, isolamento social por não conseguir mais se relacionar com as pessoas.

As crianças e jovens parecem hipnotizados pelos aparelhos móveis e iniciam, assim, um processo de isolamento social, que torna-se devastador. Não conversam mais com os amigos, familiares; os diálogos passaram a ser monossilábicos, e aí ocorre a dificuldade de se relacionar com as pessoas, devido ao facto de permanecer muito tempo diante dos ecrãs. Tornam-se usuários patológicos, dependentes da Internet, ou seja, pacientes com

transtornos mentais.

As crianças e jovens não sabem brincar porque não aprenderam. Receberam em suas mãos, ao invés de brinquedos, aparelhos eletrónicos. Portanto, brincando, desenvolvem- se habilidades motoras, cognitivas, criativas, de imaginação e, principalmente, de lidar com sentimentos de perda e de posse, frustração e superação, respeito e compaixão, amizade e honestidade.

Crianças e jovens passaram a ser criados pelos avós, porém sem autonomia para educa-los, pois os pais desejam educa-los de forma contemporânea, diferente da educação que receberam. Procuram dar todas as facilidades às crianças e também fazer tudo que for possível por elas. Os progenitores não abrem mão da sua independência e procuram fornecer à prole tudo que há de mais moderno, passando para os filhos a ilusão de que tudo é o mais importante.

Assim, os pais tornam-se “bonzinhos”, mas, na verdade tornam-se pais omissos, dominados pelos filhos e sem autoridade alguma sobre a criança ou adolescente. O resultado são filhos que crescem sem limites, sem respeito, sem disciplina e sem valores, pois os pais têm como retórica de que falta tempo e o pouco tempo que dispõem querem aproveitar para o descanso, lazer, centro comercial, etc.

Na demonstração cabal do amor, esquivam-se os pais na postura de querer ser facilitado de tudo para os filhos, a fim de lhes poupar frustrações e evitar que eles errem e sofram deceções, e, ainda, suportem as consequências dos próprios atos.

Amadurecimento requer esforço pessoal e perseverança. Errar é parte integrante do amadurecimento, como assumir a consequência do próprio erro e buscar refazer novamente.

Pais que se omitem na educação de seus filhos, não colocando limites nem regras ou obrigações, e deixam para a escola essa obrigação – cuja função principal não é essa, mas sim de instruir, entre outras -, estarão principiando a esse jovem um futuro rechaçado na sociedade. Assim, a ausência de disciplina no núcleo familiar tem como resultado inumeráveis conflitos, suscitando, ainda mais, o egoísmo.

Assim, esse jovem adultescente, vai um dia encontrar -se no ápice da sua fragilidade e o medo o atormenta. Sentir-se-á em total abandono e percebe então que necessita de auxílio.

Eis que agora a dor é profunda e o individuo começa a questionar-se: porquê essa dor aflitiva, esses medos? Porquê os seus vazios existenciais, a falta de perspetiva? Porquê que nada dá certo? Qual a origem de tudo isso e de cada sentimento?

( do livro  “ RECONSTRUINDO EMOÇÕES “ de Iraci Campos Noronha / Nise da Silveira

 

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