Adultescente
Adultescente é um neologismo jocoso de
sentido óbvio, cruzamento de adulto com adultescente. No entanto, ainda não
abriu caminho até aos dicionários portugueses, mais do que isso, não parece ter
vingado de verdade em nosso dia-a-dia. É só olhar à nossa volta: adultescentes
não faltam na paisagem contemporânea. Talvez você tenha um ou dois dentro de
casa. Talvez você seja um.
A caraterística comum dos adultos
“infantilizados”, consumidores de videojogos e livros sobre magos, é
prolongarem frequentemente a sua dependência do lar paterno muitos anos além da
média histórica, mesmo que – e isso é o mais intrigante –trabalhem e ganhem
dinheiro suficiente para ter sua própria casa.
Analisando a diferença impactante nos
padrões educacionais e culturais atuais, fica evidente que a adolescência se
torna precoce, como também se torna ainda mais prolongada. Os filhos não querem
sair da adolescência. Conceitua-se, então, chamado de adulto/adolescente ou
adultescente.
O adulto/adolescente acomoda-se sob as
asas dos pais e ali querem permanecer com o conforto e a mordomia, alargando
ainda mais a adolescência até cerca dos 40 anos, para não assumir os
compromissos e as responsabilidades que vêm com a idade.
Há algumas décadas (anos 60 e 70) os
pais eram mais disciplinadores, mais rígidos na educação de seus filhos, com
conceitos de formação familiar, religiosa e profissional, para constituírem suas
próprias famílias a fim de se tornarem independentes.
Advém a transformação pós-moderna das
últimas décadas. Os pais assumiram a busca pela sua própria independência como
também a sua autodeterminação, o que é uma necessidade natural e saudável,
lançando-se no mercado de trabalho tendo cada vez menos tempo para os filhos. Assim,
exposição por longo tempo à televisão ou à internet, telemóveis, videojogos pelas
crianças tem causado diversos tipos de distúrbios: relativos atrasos
cognitivos, ansiedade, deficit de atenção, irritabilidade, dificuldade de
aprendizagem, isolamento social por não conseguir mais se relacionar com as
pessoas.
As crianças e jovens parecem
hipnotizados pelos aparelhos móveis e iniciam, assim, um processo de isolamento
social, que torna-se devastador. Não conversam mais com os amigos, familiares;
os diálogos passaram a ser monossilábicos, e aí ocorre a dificuldade de se
relacionar com as pessoas, devido ao facto de permanecer muito tempo diante dos
ecrãs. Tornam-se usuários patológicos, dependentes da Internet, ou seja,
pacientes com
transtornos mentais.
As crianças e jovens não sabem brincar
porque não aprenderam. Receberam em suas mãos, ao invés de brinquedos,
aparelhos eletrónicos. Portanto, brincando, desenvolvem- se habilidades
motoras, cognitivas, criativas, de imaginação e, principalmente, de lidar com
sentimentos de perda e de posse, frustração e superação, respeito e compaixão, amizade
e honestidade.
Crianças e jovens passaram a ser criados
pelos avós, porém sem autonomia para educa-los, pois os pais desejam educa-los
de forma contemporânea, diferente da educação que receberam. Procuram dar todas
as facilidades às crianças e também fazer tudo que for possível por elas. Os progenitores
não abrem mão da sua independência e procuram fornecer à prole tudo que há de
mais moderno, passando para os filhos a ilusão de que tudo é o mais importante.
Assim, os pais tornam-se “bonzinhos”, mas,
na verdade tornam-se pais omissos, dominados pelos filhos e sem autoridade
alguma sobre a criança ou adolescente. O resultado são filhos que crescem sem
limites, sem respeito, sem disciplina e sem valores, pois os pais têm como retórica
de que falta tempo e o pouco tempo que dispõem querem aproveitar para o
descanso, lazer, centro comercial, etc.
Na demonstração cabal do amor, esquivam-se
os pais na postura de querer ser facilitado de tudo para os filhos, a fim de lhes
poupar frustrações e evitar que eles errem e sofram deceções, e, ainda,
suportem as consequências dos próprios atos.
Amadurecimento requer esforço pessoal e perseverança.
Errar é parte integrante do amadurecimento, como assumir a consequência do próprio
erro e buscar refazer novamente.
Pais que se omitem na educação de seus
filhos, não colocando limites nem regras ou obrigações, e deixam para a escola
essa obrigação – cuja função principal não é essa, mas sim de instruir, entre
outras -, estarão principiando a esse jovem um futuro rechaçado na sociedade.
Assim, a ausência de disciplina no núcleo familiar tem como resultado inumeráveis
conflitos, suscitando, ainda mais, o egoísmo.
Assim, esse jovem adultescente, vai um
dia encontrar -se no ápice da sua fragilidade e o medo o atormenta. Sentir-se-á
em total abandono e percebe então que necessita de auxílio.
Eis que agora a dor é profunda e o
individuo começa a questionar-se: porquê essa dor aflitiva, esses medos? Porquê
os seus vazios existenciais, a falta de perspetiva? Porquê que nada dá certo?
Qual a origem de tudo isso e de cada sentimento?
( do livro “ RECONSTRUINDO EMOÇÕES “ de Iraci Campos
Noronha / Nise da Silveira

